Isaiah Berlin e a tradição do pensamento liberal

sir-isaiah-berlinO caderno Mais da Folha de São Paulo publica uma série de reportagens e entrevistas sobre o pensamento político de Isaiah Berlin, que completaria cem anos no próximo dia 06 de junho. 

 Além do artigo de João Pereira Coutinho, que destaca os principais aspectos da teoria liberal de Berlin, o caderno traz entrevistas com Henry Hardy, editor e divulgador das obras do autor, com o sociólogo inglês Steve Fuller da Universidade de Warwick (Reino Unido), e com os brasileiros Newton Bignotto, professor de filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Musse, professor do departamento de sociologia da USP e Fábio Wanderley Reis, cientista político e professor emérito também da UFMG, que debatem seu legado e as implicações políticas e sociais de suas ideias e conceitos mais importantes.

 Leia trechos dos depoimentos de Isaiah Berlin disponibilizados por Henry Hardy:

 “Donos da verdade

ISAIAH BERLIN

 Poucas coisas têm sido mais prejudiciais que a crença por parte de indivíduos ou grupos (ou tribos ou Estados ou nações ou igrejas) em que ele, ela ou eles detêm a posse isolada da verdade.

 Especialmente em relação a como viver, o que ser e fazer – e de que aqueles que divergem deles não apenas estão equivocados, como são maus ou loucos e precisam ser freados ou suprimidos.

É uma arrogância terrível e perigosa acreditar que você, e você apenas, tem razão; que possui um olho mágico que enxerga a verdade e que outras pessoas não podem estar certas se discordam disso.”

Relação com o Reino Unido

ISAIAH BERLIN

Confesso que tenho um viés pró-britânico. Estudei na Inglaterra e vivo ali desde 1921; tudo o que fui, fiz e pensei é indelevelmente inglês. […]

Esses valores são a base daquilo em que acredito: que o respeito decente pelos outros e a tolerância da discordância são melhores que o orgulho e o senso de missão nacional; que a liberdade pode ser incompatível com eficiência demais e melhor que ela; que o pluralismo e a desorganização são, para os que valorizam a liberdade, melhores que a imposição rigorosa de sistemas abrangentes, por mais racionais ou desinteressados que estes possam ser, ou que o governo das maiorias contra as quais não há possibilidade de recurso.

Tudo isso é profunda e singularmente inglês, e admito de bom grado que acredito nisso e não posso respirar livremente senão numa sociedade em que esses valores são, na maioria das vezes, dados como certos e garantidos.” (Traduções de Clara Allain).

CONCEITOS-CHAVES DE BERLIN:

Liberdade negativa

É a ausência de restrições impostas à ação do indivíduo. Segundo essa concepção, a pessoa é livre se ninguém a impede de fazer o que ela deseja. Quando se pensa na relação indivíduo e Estado, pela concepção da liberdade negativa, o indivíduo deve ser resguardado das restrições que o Estado o impõe. As leis devem proteger o indivíduo da ação de outros indivíduos e do Estado. Em linhas gerais, é associada ao liberalismo político e aos direitos civis.

Liberdade positiva

É a presença de controles que possibilitam ao indivíduo agir livremente, segundo sua vontade. Aplicada à política, a concepção da liberdade positiva defende que o Estado deve fornecer ao indivíduo as condições materiais (saúde e educação, por exemplo), para que ele esteja plenamente apto a fazer suas escolhas. É associada à social-democracia e aos direitos sociais.

Pluralismo

É o reconhecimento da diversidade de valores humanos. Opõe-se ao monismo (uma verdade única que pode determinar toda a vida). O pluralismo ético defendido por Berlin diz que sociedades têm conjuntos de valores diferentes, que podem ser compartilhados entre si, mas elas são diferentes nos seus conjuntos de valores.

Incomensurabilidade

Para Berlin, os valores não podem ser medidos, e não há um procedimento para resolver os conflitos de valor. Assim, a ideia de unidade perfeita – como aparece na tradição filosófica utilitária, ao defender a síntese de valores em uma única categoria, como “bem-estar” ou “felicidade”- é impossível.

CRONOLOGIA:

1909

Isaiah Berlin nasce em 6 de junho no seio de uma família judaica em Riga, capital da Letônia – que integrava, à época, o território russo

1921

Transfere-se com a família para o Reino Unido

1932

Gradua-se em filosofia no Corpus Christi College, na Universidade de Oxford, onde passa a lecionar teoria social e política

1939

Publica seu primeiro livro, “Karl Marx” – uma biografia do autor do “Capital”. No decorrer da Segunda Guerra (1939-45), trabalha na embaixada britânica em Washington (EUA)

1945

Trabalha na embaixada britânica em Moscou, na então União Soviética. Conhece o escritor Boris Pasternak e a poeta Anna Akhmátova

1948
O amigo Chaim Weizmann, o primeiro presidente de Israel, o convida para assumir o Ministério das Relações Exteriores do jovem Estado. Berlin recusa

1953

Publica o ensaio “The Hedgehog and the Fox” (O Ouriço e a Raposa)

1956

Casa-se com a francesa Aline de Gunzbourg

1958

Publica o ensaio “Two Concepts of Liberty” (Dois Conceitos de Liberdade)

1966

Torna-se professor na Universidade da Cidade de Nova York, onde leciona até 1971

1997
Morre em 5 de novembro, aos 88 anos, em Oxford

BERLIN NO BRASIL:

Ideias Políticas na Era Romântica (Companhia das Letras, a ser lançado em novembro)

estudos sobre a humanidadeEstudos sobre a Humanidade (Companhia das Letras, trad. Rosaura Eichenberg)

forca das ideiasA Força das Ideias (Cia. das Letras, tradução de Rosaura Eichenberg)

 

 

 

 

sentido da realidadeO Sentido de Realidade (Civilização Brasileira, tradução de Renato Aguiar)

 

 

 

Assinante da Folha lê a íntegra do Caderno aqui.

Reproduções de trechos de cartas originais não publicadas de Isaiah Berlin podem ser encontradas aqui.

Leia aqui o artigo sobre Isaiah Berlin “A Madeira Torta da Teoria”, de Robert Kurz.

Site Oficial de I. Berlin aqui.

[Publicado pelo Editor]

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