Hipertrofia da lei no mundo moderno

“A multiplicação das leis jurídicas, semelhante à multiplicação das leis naturais, faz com que o cidadão, que, para observá-las deveria conhecê-las, já não está em condições de fazê-lo. A publicação dessas leis como condução de sua imperatividade mudou de caráter, de presunção, convertendo-se em ficção. O homem da rua, entre a miscelânea das leis, anda cada vez mais desorientado, da mesma forma que o motorista, quando muitos faróis se entrecruzam ao longo da estrada. À medida que cresce o número das leis jurídicas, diminui mais a possibilidade de sua formação cuidadosa e equilibrada. A analogia, nesse aspecto, entre a inflação legislativa e a inflação monetária, que utilizei tantas vezes, é decisiva. A função legislativa transborda agora do alvéolo, que deveria contê-la segundo os princípios constitucionais. O limite entre poder legislativo e poder administrativo, em especial parlamento e governo, é violado cada vez com mais freqüência e inevitavelmente. Por isso a multiplicação das leis, com relação ao perigo em matéria de certeza, não pode deixar de se associar o outro perigo em matéria de justiça.”

 

Francesco Carnelutti, in A morte do direito.

2 comments so far

  1. Josué on

    Caríssimo Prof. Farlei:

    O grande jurista Carnelutti é, em geral, irretocável em suas considerações. Cabem aqui, contudo, ao menos duas.

    A primeira é que as leis jurídicas sempre foram e sempre serão fictícias. Elas não existem na realidade, elas não são eternas, tampouco imutáveis. Elas existem ao sabor das relações humanas, que se cristalizam na forma de normas jurídicas. São ficções justamente porque passam a existir a partir daquele momento em que são positivadas –e dali em diante passam a dever ser observadas.

    A segunda decorre do aumento da complexidade do mundo e das relações humanas. Não há apenas UMA forma (racional, teológica ou teleológica) de se relacionar em sociedade, e tais formas muitas vezes conflitam entre si. Relacionar-se de um modo com um grupo social pode (e fatalmente vai) impedir que esse mesmo grupo não se relacione com outros (por que se escolheu, dentro de um cenário de recursos escassos, relacionamento com um e não com outro) e por aí vai.

    Por conta da necessidade de se relacionar (pois quem não trava relações sociais não sobrevive sozinho: os homens são animais gregários porque dependem uns dos outros), cada grupo tende a requerer a positivação de normas cujo conteúdo seja mais adequado à forma como esse grupo atua em sociedade.

    Como todos os grupos passam a ter igual legitimidade democrática, as normas positivadas, igualmente válidas e legítimas, causam o problema de não se saber mais a qual seguir. Afinal, norma jurídica deve ser observada não importa o valor social que a imprima.

    Bom, tudo isso para pedir que o texto do Carnelutti seja lido com outro, de Rudolf von Ihering, que não por acaso que afirmou, mais de século atrás, que não existe direito sem luta. Cada grupo luta para que as relações humanas mais adequadas a sua organização perante a sociedade sejam cristalizadas para toda a sociedade na forma de normas jurídicas.

    As ficções de cada grupo se tornam realidade na forma de normas jurídicas e impõem a forma de relacionamento social a ser observada. Daí por que há tantas leis contraditórias. Não é erro do legislador. Só disputa democrática.

    Enfim, o direito não morreu. Apenas ficou diferente.

    Abraços do Josué

  2. Ines D´Argenio on

    Farlei: Qué maravilla este intercambio epistolar. Es realmente gratificante
    leer las reflexiones de los profesores brasileiros. Desde mi ángulo, e
    insistiendo siempre en la reformulación del derecho administrativo, la
    prueba más acabada de la crisis del sistema administrativo tradicional,
    guiado siempre por el acto administrativo como único modo conocido del
    ejercicio de la función, es el fracaso de la gestión de la ley por la
    función administrativa. Comparto las reflexiones generales sobre el
    desconocimiento y cumplimiento de las leyes. Y me parece que la más grave de
    todas estas variantes es el incumplimiento de ellas por el propio Estado, en
    cuanto su función administrativa no se organiza para la satisfacción del
    bienestar general contemplado por el legislador al fijar sus políticas
    pública. El peor error es que, bajo nuestras Constituciones, muy diferentes
    a las constituciones francesas, el Poder Ejecutivo cree que puede fijar él
    directamente las políticas públicas desoyendo al Congreso (a juzgar por la
    manifestación contra Sarkozy no advierto que este sistema en Francia dé
    mejores resultados). En la deliberación está el pluralismo. Y por eso, el
    incumplimiento de las leyes por el Estado en un incorrecto ejercicio de
    función administrativa – guiado por el sistema administrativo autoritario
    que le da letra para creer en su discrecionalidad y su apropiación
    monopólica del interés público – desvía casi delictivamente el destino de
    los recursos públicos. La doctrina del acto administrativo de autoridad
    permite un ejercicio discrecional de la administración como “poder” que es
    decimonónico, y tal vez funcionaba entonces (así lo creyó Fortshoff, de
    buena fe). Hoy solo habilita la corrupción y con ella una profunda
    insatisfacción social por la omisión en la ejecución de las políticas
    públicas que las leyes proclaman sin resultados concretos. ¿Porqué ha de
    creer el hombre común que debe cumplir las leyes si el Estado omite su
    cumplimiento en el desvío de una función esencial impuesta para ello? ¿Quién
    ha creado en derecho administrativo un esquema de pensamiento adecuado para
    la evaluación de resultados de la gestión administrativa en relación con la
    ley? Las disposiciones de los tratados internacionales que consagran
    derechos humanos e imponen su realización “hasta el máximo posible en que
    los presupuestos nacionales lo autoricen” son mera letra de imprenta en la
    medida en que nuestra disciplina no se ocupe del control del gasto público
    en una verdadera evaluación de la elección del destino de ese gasto, de los
    condicionamientos de esa elección por las normas superiores, y de la
    derogación de los dogmas de la discrecionalidad administrativa, la zona de
    reserva de la administración, la prohibición all Poder Judicial de
    “inmiscuirse” en “políticas de gobierno”, etc. etc. La justicia de la Ciudad
    Autónoma de Buenos Aires ha redefinido la función judicial en materia
    administrativa limitada siempre a la consabida “revisión” al decir que los
    jueces deben constatar en el caso concreto si la administración ha cumplido
    la ley y, en tal caso, ordenar el ejercicio de la función administrativa
    consecuente. Un mandato constitucional incumplido – dijo el Tribunal
    Superior – importa el deber jurisdicional de subsanar su incumplimiento; y
    declaró que el escrutinio judicial del gasto público es posible en la medida
    en que en la gestión de ese gasto se encuentren en juego derechos
    esenciales invocados en el caso. Me parece que el activismo judicial tiene
    que ver con el incumplimiento de las leyes: cuando empiecen a cumplirse,
    naturalmente disminuirá. Me parece. Inés D’Argenio.


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