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Giovanni Reale e a saggezza antica

Por Ubiratan Iorio

 

Não há palavras suficientes para descrever a alegria intelectual e espiritual que me proporcionou a leitura de Saggezza Antica – Terapia per i Mali dell´Uomo d´Oggi,do filósofo italiano Giovanni Reale, publicado pela Loyola, com tradução de Silvana Cobucci Leite, com o título “O Saber dos Antigos – Terapia para os Tempos Atuais”. Recebi-o em evento realizado em agosto último em São Paulo, coordenado por meu prezado colega e amigo Nivaldo Cordeiro, em que discutimos a importância das obras de Ortega e Gasset e Eric Voegelin para os difíceis dias em que está submerso o nosso mundo. Tratando-se de regalo do Nivaldo, fiz o livro “furar a fila” e passei-o à frente de dezenas de outros que, preguiçosamente, esperam enfileirados na estante do escritório. Para que fui fazer isso? Na metade do livro, comprei mais dois do mesmo autor, “Corpo, Alma e Saúde – O Conceito de Homem de Homero a Platão” e Il Valore dell´Uomo, este escrito com o Cardeal Angelo Scola e ainda não traduzido para o português, além de encomendar Il Pensiero Occidentale dalle Origine ad Oggi, escrito a quatro mãos (ou a duas, se o fizeram em manuscrito) com o famoso filósofo Dario Antisseri. Com isso, a fila ficou desorganizada, mais parecendo, para minha surpresa, aquelas da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, dos hospitais públicos ou do INSS… Dado isto, estou pensando em alocar uma senha de atendimento para cada livro…

 

A Saggezza é uma crítica muito bem fundamentada ao niilismo de Nietzsche, Heidegger e outros badalados “filósofos” e escritores, corpo de idéias apontado por Reale como “a raiz de todos os males que atingem o homem de hoje”, cuja erradicação requer um tratamento enérgico, que consiste em anulá-lo por meio da recuperação de ideais e de valores supremos, bem como a derrocada do ateísmo e do “assassinato de Deus”, de que Nietzsche sempre fez questão de se vangloriar. Reale sugere, com formidável erudição, que parcela considerável dessa terapia pode ser encontrada na sabedoria grega, que conhece profundamente, especialmente em Platão e Aristóteles.

 

E mostra com clareza cristalina que a ideologia não passa de uma forma de fé imanente, abraçada automaticamente por milhões de homens (o “homem-massa” de Gasset) na crença cega de que seja fé em coisas verdadeiras (o que Voegelin chamava de “Segunda Realidade”); adotada por outros mediante simulação, em que se finge acreditar em sua realidade; e utilizada pelos ideólogos para levar multidões de incautos sem qualquer capacidade de percepção da realidade – a “Primeira Realidade” de Voegelin – a acreditarem que seja verdadeiro aquilo que eles incitam a crer, quer eles próprios acreditem naquilo, quer não. Como aparece nos “Fragmentos Póstumos” de Nietzsche, “é necessário que algo seja considerado verdadeiro; não que algo seja verdadeiro”… Coisa digna de farsantes da pior espécie. 

 

A afirmativa de que “Deus está morto” é, para o filósofo italiano, o emblema do niilismo, significando que o mundo meta-sensível ou metafísico dos ideais e dos valores supremos, concebido como um ser e como uma realidade em si, como causa e como fim, como aquilo que dá sentido a todas as coisas materiais e à vida humana, perdeu toda a consistência e toda a importância.

 

É naturalmente impossível resumir em um pequeno artigo toda a argumentação de Reale, mas vale reproduzir os dez itens, aos quais dedica dez capítulos que são o cerne do livro e que, para ele, enfeixam os males modernos e os disfarces niilistas dos valores perdidos, que os vêm levando ao esquecimento:

 

1. o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;

2. a absolutização do ideologismo e a rejeição do ideal do verdadeiro;

3. o praxismo, mediante sua exaltação da ação pela ação, em detrimento do ideal da contemplação;

4. a identificação do bem-estar material como sinônimo da felicidade;

5. a difusão da violência;

6. a perda do sentido da forma e a distorção da estética;

7. a redução do Eros à sua mera dimensão física, com o esquecimento da “escala de amor” platônica e a deturpação do verdadeiro amor;

8. a redução do homem a uma única dimensão e a exacerbação do individualismo;

9. a perda do sentido do cosmos e do fim último de todas as coisas;

10. o materialismo em todas as suas formas e o conseqüente esquecimento do ser.

 

Para curar esses terríveis males do espírito, Reale recorre à sabedoria – saggezza – dos antigos, que pode proporcionar uma série de remédios que, se não eliminam todos os males, podem, na pior das hipóteses, mitigá-los, impondo-se como pólo dialético e, portanto, como imprescindível termo de comparação na árdua tarefa de reconduzir o homem moderno à sua dignidade esquecida.

 

Em suma, o homem de hoje tenta a todo o custo eliminar o passado, em nome de pretensos “avanços e progressos”, mas essa forma de tentar projetar-se no futuro é irracional, porque termina aniquilando o próprio futuro, exatamente porque o desprovê de um necessário passado que lhe sirva de termo de referência. Como observa Reale, não é extirpando as raízes de uma planta que se joga fora eventuais galhos que apodreceram com o tempo. O amanhã não pode existir sem o hoje e este não pode ser real sem o ontem!

 

Recomendo com todas as estrelas possíveis a leitura de “O Saber dos Antigos”, bem como de toda a obra de Giovanni Reale, um filósofo com F maiúsculo e com H também maiúsculo de homem, no sentido de que assume a condição e a dignidade humanas em sua integridade.

 

Precisamos combater o niilismo com todas nossas forças, para a nossa própria felicidade, aquela que só é compatível com a Primeira Realidade.

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Entrevista: José Luís Fiori

fioriJosé Luís Fiori, professor e diretor do Programa de Pós-graduação de Economia Política Internacional da UFRJ, em entrevista para o jornal O Globo, contesta a tese de que a crise global, que nasceu no berço americano, signifique o fim ou colapso do poder global dos Estados Unidos ou a crise terminal do capitalismo. No livro que chegou às bancas esta semana, “O mito do colapso do poder americano” (Record), escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano, Fiori volta ao século XIII para mostrar o movimento de formação dos Estados nacionais. Ele prevê “nova corrida imperialista”, com os EUA no papel central, junto com China e Rússia, indo para África e Ásia Central. E diz que acabou a “adolescência assistida da América do Sul”.

 

O GLOBO: No seu livro, o senhor prevê uma nova corrida imperialista.

 

JOSÉ LUÍS FIORI: É a idéia de uma explosão, que eu exponho pela primeira vez nesse livro. Minha reflexão teórica me levou a ver a relação da Inglaterra e Estados Unidos, não como uma sucessão de ciclos hegemônicos, e sim como uma continuidade da mesma força expansiva anglo-saxônica, que arranca da Holanda, passa pela Inglaterra e chega aos Estados Unidos. Mesmo que acreditasse no fim da supremacia americana, isso não significaria o fim do capitalismo. Não há nenhum sinal disso. O sistema mundial de hoje, que nasceu na Europa, assemelha-se mais a um universo em expansão contínua do que a uma sucessão de ciclos vitais ou biológicos. Como se este sistema acumulasse energia e se expandisse de forma contínua desde o século XIII e passando momentos de explosão expansiva, como no século XVI, XIX e agora de novo, neste início do século XXI.

 

E os EUA com Obama?

 

FIORI: Frente a uma situação como a que estamos vivendo, não há conversa. É uma crise econômica, profunda, extensa e prolongada. A isso se junta a incerteza do ponto de vista estratégico militar americano depois do fracasso no Oriente Médio. A junção das duas coisas cria uma situação de grande complexidade seja na administração da crise econômica, seja na reorientação da estratégia militar internacional dos EUA. Os Estados Unidos têm hoje acordo militar com cerca de 130 países e têm mais de 700 bases militares ao redor do mundo. Os EUA não têm mais como recuar dessa posição global. Enfrentarão dificuldades e contradições crescentes, mas não recuarão por sua própria vontade. Para bem ou para o mal, já não há possibilidade de uma ordem mundial futura, qualquer que seja ela, sem a presença do poder americano, que jamais parará de acumular poder e riqueza, mesmo quando já esteja quilômetros à frente dos seus competidores imediatos.

 

E política externa?

 

FIORI: Neste campo muitos depositam expectativas contraditórias no novo governo americano. Mas o programa democrata da sra. Hillary e o de Obama são explicitamente intervencionistas. A sra. Hillary Clinton foi a favor da guerra no Iraque. E no governo de Bill Clinton, os Estados Unidos fizeram cerca de 48 intervenções ao redor do mundo.

 

E onde deve se dar essa nova onda expansiva?

 

FIORI: Esta expansão imperialista se dará na África Central, e em um tempo mais, na América do Sul. Na África, a competição entre as grandes potências gera “zona de fratura” onde tendem a se multiplicar as guerras civis. A América do Sul virá logo a seguir, por se tratar de um território com imensos recursos energéticos, minerais e hídricos. Já há sinais disso. Conflitos aqui e lá. Você vê menos porque a América Latina é uma região sabidamente de supremacia americana. Mas a ativação da IV frota americana é um exemplo do aumento da preocupação com o continente. Manifestação indiscutível de que a região está se integrando dentro do sistema mundial de competição entre as nações. Neste sentido, digo que acabou a “adolescência assistida” da América Latina. Seremos, em breve, os maiores exportadores de alimentos do mundo. E a água é questão essencial.

 

Com a crise, ficou clara a relação entre estado e capital?

 

FIORI: Agora só um cego não vê. Ficou transparente a relação inseparável que sempre existiu entre o príncipe e banqueiro, de que falava Fernando Braudel.

 

E a Rússia?

 

FIORI: Um dos grandes desestabilizadores do sistema mundial nas próximas décadas deverá ser a Rússia, e não a China. A Rússia foi a grande derrotada deste fim do século XX e perdeu cerca de um terço do território do seu velho império. Daqui para frente, sua estratégia estará sempre voltada para a recuperação total ou parcial de suas perdas. Não há como a política externa da Rússia não estar orientada nos próximos 50 anos pelas perdas que teve nos últimos 15 anos.

 

No seu livro, o senhor diz que não haverá um duelo final entre China e Estados Unidos.

 

FIORI: Não haverá um duelo final e a integração financeira só tende a crescer, numa aliança virtuosíssima. Isso não quer dizer que não vão competir fortemente pelo controle de energia e de alimentos.

 

O senhor diz que o Brasil não terá uma presença internacional maior.

 

FIORI: O Brasil não tem capacidade nem mostra interesse em projetar globalmente o seu poder. Mas, sim, tem poder e capacidade crescente dentro da América do Sul. Neste sentido, deve se prever uma tensão maior entre o Brasil e a nova administração democrata, que tem uma tradição mais intervencionista. Haverá disputa de interesses de todos os tipos crescentemente, mas não quer dizer que haverá rompimento com os Estados Unidos. O Brasil tem alargado sua presença em vários cenários e instâncias multilaterais. Tem relações com a África, com a Ásia, o G-20. Mas isso é diferente de ter uma capacidade de projeção global de poder que tem a ver, basicamente, com canhão e capital.

 

O senhor crê numa mudança na engenharia financeira?

 

FIORI. Sim, mas sem qualquer tipo de acordo ou regulação multilateral. Como nas décadas de 70 e 80, os EUA vão tentar reorganizar e regular o sistema a partir de si mesmo.

 

[Publicado pelo Editor]

O retorno de Marx

Ángel Rupérez, escritor e professor de Teoria da Literatura da Universidade Complutense de Madrid, em artigo para o jornal El País, afirma que neste momento em que o capitalismo deu mostras de suas fraquezas mais demolidoras, a figura de Marx deve ser recuperada.

 

El retorno de Marx

ÁNGEL RUPÉREZ

El País, 30.11.2008

 

La losa que pesa sobre el pensamiento de Carlos Marx, debido a la usurpación que hicieron de él las revoluciones que se llamaron marxistas, todas fracasadas, ha impedido que reconozcamos, sin esos lúgubres embargos, la grandeza de algunas de sus ideas (no de todas, desde luego). Pero de la misma manera que podemos leer el Evangelio de Jesús liberados de las coacciones que ejercen sobre él los atropellos cometidos en su nombre -múltiples crímenes de toda laya-, así también podemos y debemos recuperar la figura de Marx sin consentir que ninguno de sus usurpadores lastre el alcance del poder crítico y liberador de su pensamiento. Y en estos momentos en los que el capitalismo ha dado muestras evidentes de sus flaquezas más demoledoras, la figura de Marx debe ser recuperada precisamente para recordar la forma como describió el funcionamiento del capitalismo, siempre voraz y dispuesto a cualquier forma de abuso con tal de hacer valer su principio esencial del beneficio por encima de todo.

 

Que la idolatría del dinero supusiera la humillación de miles y miles de seres humanos, era algo que al primer capitalismo no le importaba la más mínima higa. De ahí que Marx, genial intérprete de esos mecanismos de dominación, fuera a la vez alguien que quisiera y se propusiera cambiar el signo de la historia con el fin de superarla en un proyecto ideal que, al hacerse él mismo historia, degeneró en sociedades también esclavizadas, con el crimen político como bandera y la segregación social como método de dominación. Al caer esos regímenes totalitarios y estafadores, pareció que el capitalismo no tenía oponentes y por eso alguien que se hizo famoso pudo decretar el fin de la historia, que sólo era el sueño de la impunidad absoluta. Ninguna tropelía cometida en nombre del capitalismo podría seriamente ser objeto de una desautorización global en el siglo XXI, puesto que no había ideas alternativas, ya que las únicas que se habían alegado y puesto en práctica habían fracasado estrepitosamente. Incluso un país como China, mastodonte que mantiene intactas las hechuras de un Estado totalitario, hizo su particular revisión y se afilió al capitalismo antaño denostado y del que ahora es un principal motor en el mundo, atropellando a su paso los derechos humanos y también los derechos de la Naturaleza (que son también derechos humanos).

 

Pero si leemos sin prejuicios los escritos de Marx, nos daremos cuenta del portentoso aliento que hay en ellos para penetrar en los entresijos de la maquinaria del capital voraz y ciego con el fin de no someterse a la primacía del dinero como valor supremo, convertida en ideología inapelable, es decir, en auténtica ley de la historia inmune a cualquier justificada y desconfiada sospecha y no digamos a cualquier intento de superación. Una reflexión crítica sobre nuestro mundo nos avisa, como avisó Marx en el XIX, de que el dinero es el ídolo absoluto que los capitalistas financieros, enfermos de avaricia, han pretendido multiplicar, en forma de beneficios ilimitados, por medio del engaño y la mentira. Las víctimas de sus operaciones fraudulentas no serán precisamente ellos mismos, los grandes tiburones de las finanzas, inmensamente remunerados, a salvo de cualquier imputación legal, lejos de cualquier cárcel justamente punitiva, sino todos los que, gracias a ese bandidaje de cuello blanco, conocerán la ruina de sus vidas, aquí y allá, cerca y lejos, en los países desarrollados pero también en los países pobres, más pobres aún, más miserables aún si cabe cuando la marea negra se extienda. A ese capitalismo ilimitadamente voraz hay que imputarle, con la ayuda de Marx, el encerramiento de la existencia en la cárcel exclusiva del dinero idolatrado y de su progenie no menos ciega e inhumana: los valores que se arrastran detrás de esa estela que no mira más que a su ombligo, y es ajena al horror de la pobreza de los más pobres que ya lo eran y a la de los que lo serán a partir de ahora.

 

La avaricia insaciable ha dejado al descubierto la esencia de un sistema que solo cree en el fondo en el dinero como único valor y sobre el que pretende que fundamentemos todas las manifestaciones de la existencia. Así, la productividad económica rige los últimos derroteros de la educación superior; las desmesuradas ganancias rigen los principios de la actividad económica; la acumulación de dinero rige los anhelos de tantos y tantos seres humanos, doblados en pequeños terratenientes de sus idolatradas -aunque modestas- riquezas; el valor de cambio de las obras de arte -Hirst y compañía- sustituye con creces su contenido de verdad, como diría Adorno, y, a la postre, su invitación a ser un hecho revelador del hombre esencial antes que un sustituto del dinero. Los escritos de Marx nos ayudan a no creer en esos ídolos y a denunciar las mentiras sobre las que se sustentan. No sé si habrá otras alternativas, pero al menos ese pensamiento, que parecía enterrado, nos devolverá, en el espejo roto de nuestra reciente historia, la mejor imagen de nuestra dignidad.

 

[Publicado pelo Editor]

A legislação sobre construção civil no Rio de Janeiro

A arquiteta e ex-subsecretária municipal de Urbanismo, Andréa Albuquerque G. Redondo, faz um histórico da legislação que regulou a construção civil e o ordenamento do solo urbano na cidade do Rio de Janeiro, até o advento do Plano Diretor de 1992.

 

Riscos no Rio

Andréa Albuquerque G. Redondo

O Globo, 28.11.2008

 

Em tempos de mudança na gestão do Rio de Janeiro cabe refletir sobre as leis que regem a construção civil na cidade desde meados do século XX. O estímulo à construção de prédios de grande volumetria e altura seguiu uma curva crescente até 1975, quando se iniciou um processo inverso, presente até hoje.

 

Em 1937 o Código de Obras do Distrito Federal reuniu normas para a construção de edifícios, modelo em expansão com o advento do concreto armado. Copacabana é exemplo de aproveitamento máximo do solo: salvo pequenas praças, prédios volumosos ocuparam todos os espaços e esconderam belos morros, agora despercebidos.

 

O Código de 1970 incentivou a construção de torres ainda mais altas, uma tendência mundial: fora poucos locais especiais, a altura dos prédios era livre. Na prática, quanto maior o terreno, mais alto seria o edifício, dispensadas relações de harmonia com prédios vizinhos, existentes ou futuros. Para os hotéis na Zona Sul as facilidades foram ao extremo gerando volumes desproporcionais que, paradoxalmente, criaram sombras indesejáveis na areia. Só em 1975 o gabarito máximo foi fixado em 18 andares, exceção para o Centro e a Barra da Tijuca. Finalmente, um freio nos excessos predatórios para o Rio.

 

Em 1977 o município foi dividido em Áreas de Planejamento: as leis passariam a contemplar as regiões de modo diverso. A norma geral, porém, ainda privilegiava prédios altos, estímulo à substituição de casas e edifícios baixos, por torres. Esse benefício também foi reduzido pela Administração Municipal em 1987.

 

Em 1992 o Plano Diretor manteve os critérios que haviam mudado o olhar sobre a cidade. Na época já se firmara o preceito da ecologia, e a defesa do meio ambiente fora contemplada nas leis edilícias. Nesse contexto, o Plano instituiu as Unidades de Conservação Ambiental, instrumento para a realização dos objetivos da Política de Meio Ambiente e Valorização do Patrimônio Cultural. Consolidavamse as iniciativas para proteção do ambiente urbano adotadas desde 1978, como ocorreu do Centro a Santa Cruz, e, mais recentemente, da Glória ao Leblon, referências da memória do Rio traduzidas em qualidade de vida. É de se notar que os novos conceitos e as ações sob a ótica da Cultura não impediram a importante atividade da construção civil: as áreas de expansão e adensamento continuaram a receber os investimentos do setor.

 

Nessa cronologia destoava a Lei da Mais-Valia, criada em 1946 e revigorada até 1997. Ato de natureza contraditória, permitia a manutenção de obra feita em desacordo com a licença, e regularizava o irregular mediante pagamento, inclusive acréscimo de andares, em oposição à busca de gabaritos adequados ao perfil do Rio. Lei ineficiente como instrumento de controle, suas reedições induziam o desrespeito às limitações administrativas, certo o infrator de que legalizaria o impossível de licenciar, na chamada cidade formal. A sanção jamais foi inibitória.

 

Em decisão inédita do governo municipal, o projeto de lei, que mais uma vez permitiria a legalização de obras irregulares sob pagamento, foi vetado pelo Executivo em dezembro/2003, rejeitando-se as agressões à ordem do planejamento urbano e rompendo-se um círculo vicioso após meio século de vigência. O veto inovador pôs em foco o dever de obediência às leis, reafirmando-se o respeito à cidade e aos cariocas.

 

Em coerência com o anúncio de criação da Secretaria da Ordem Pública, espera-se que o prefeito eleito compreenda, acolha e dê continuação a esse conjunto de decisões em favor do Rio, especialmente quanto a defender as Apacs e afastar a volta da mais-valia, instrumento nocivo que premiava o descumprimento da lei. Afinal, trata-se de conquistas que não pertencem a governos, mas, sim, à cidade e à sua população.

 

[Publicado pelo Editor]

Orçamento virtual das agências reguladoras

Reportagem da revista Época de 17.11.2008 (Edição nº 548) mostra que do total de recursos previstos no Orçamento federal para todas as atividades, o governo bloqueia em média 1,5%. No caso das agências, levantamento do site Contas Abertas mostra que, neste ano, 77% do dinheiro reservado para agências está bloqueado. Conclusão: falta dinheiro para os órgãos encarregados de fiscalizar e regular setores essenciais da economia.

 

Recorda a reportagem que no governo Lula, a independência das agências sofreu resistência ideológica. De lá para cá, as agências passaram a sofrer de anemia crônica. O mandato fixo dos dirigentes é outro problema recorrente para o atual governo, uma vez que só podem ser removidos em duas hipóteses: se renunciarem ou se ficar comprovada a prática de crime ou infração disciplinar grave. Nem o Congresso, de onde saem aprovados, tem poder para demiti-los. “A idéia dos mandatos fixos, inspirada no modelo americano, é preservar a autonomia das agências e protegê-las de interesses políticos”, diz o advogado Gustavo Binenbojm, professor de Direito Administrativo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e colaborador do blog: “Importamos um modelo sem os acessórios, que são os mecanismos para aumentar a transparência e o controle externo.”

 

O contingenciamento do orçamento das agências é um exemplo de captura política do órgão regulador, tema já comentado neste blog por ocasião da crise área que afetou a Agência Nnacional de Aviação Civil – ANAC:

 

Suspeita de captura política na ANAC

Posted 5 Junho, 2008

 

Captura política na ANAC – 2

Posted 6 Junho, 2008

 

Captura política na ANAC – 3

Posted 7 Junho, 2008

 

Regular as agências reguladoras?

Posted 16 Junho, 2008

 

Regular as agências reguladoras? – 2

Posted 18 Junho, 2008

 

Veja abaixo infográfico elaborado pela revista Época com dados sobre o orçamento das agências e a missão de cada uma delas.

 

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[Publicado pelo Editor]