Archive for setembro \30\UTC 2008|Monthly archive page

Manchetes da crise

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Bailout rejeitado

O Plano Paulson de US$ 700 bilhões às instituições financeiras caiu na Câmara com 228 votos contra e só 205 a favor. 141 democratas votaram a favor e 94 contra. 66 republicanos votaram a favor e 132 contra. (Bailout Plan Rejected, Markets Plunge, Forcing New Scramble to Solve Crisis. The Wall Street Journal, 30.09.2008).

 

 

As conseqüências já são sentidas devastadoramente na bolsa de NY. No pior pregão em mais de 20 anos, os preços das ações negociadas na principal praça financeira do mundo perderam US$ 1,2 trilhão em valor, o equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro do ano passado. (Bolsa de Nova York perde “um Brasil”. Folha de São Paulo, 30.09.2008).

 

O presidente George W. Bush insiste na necessidade de aprovação do plano e crê que sem ele, a situação, já urgente, será ainda pior e dano para economia será “doloroso e duradouro”. (Bush insiste en su plan de rescate. El País, 30.09.2008).

 

 

The Universal Declaration of Human Rights

Bailout cartoon

  Tom Cheney – The New Yorker

Um capitalismo que se dê ao respeito

Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, comenta para o Valor Econômico de 29.09.2008 a crise norte-americana sob a perspectiva da ciência política:

 

Um capitalismo que se dê ao respeito

Fábio Wanderley Reis

 

Em matéria dedicada ao plano do governo dos Estados Unidos para o resgate das finanças do país, diz a revista “The Economist”, na edição de 25 de setembro, que “a idéia de qualquer resgate é profundamente perturbadora para qualquer capitalista que se dê ao respeito”. A sugestão é a de que um capitalista que se preze não deve ter por que ir ao Estado de chapéu na mão – ou, de modo mais amplo, a de que um capitalismo autêntico prescinde do Estado, a não ser como provedor de segurança institucional-legal para as transações privadas.

 

As proporções da crise financeira agora vivida pela economia americana trazem a indagação de como relacionar essa perspectiva com a idéia do “espírito animal” dos capitalistas – ou, em outra expressão de Keynes, com a tendência do capitalismo à “selvageria”. Um Estado limitado a garantir o quadro legal geral é, como tudo indica que teremos de aprender de novo de maneira penosa, compatível com formas de atuação dos capitalistas que nada têm a ver com certo cavalheirismo vitoriano apontado por alguns entre os supostos da economia neoclássica, redundando antes na busca irresponsável e gananciosa de ganho. E o Estado (tal como, para fazer justiça, a própria “The Economist” vem frisando há tempos) tem necessariamente de exercer ativamente a vigilância e a fiscalização que neutralizem as tendências “selvagens”. Um capitalismo que se dê ao respeito será aquele em que o Estado contenha a selvageria.

 

O drama crucial envolvido reside num aspecto que tem sido destacado, especialmente por autores de inspiração marxista, com a fórmula da dependência estrutural do Estado e da sociedade capitalistas em relação aos interesses dos donos do capital. Uma face benigna dessa dependência se tem em que os interesses “animais” dos capitalistas – ao criar empresas, crescimento econômico, oportunidades de emprego – podem apresentar-se legitimamente como correspondendo ao interesse público. A perversão disso, ou a face maligna, tem a ver com o fato de que a assimilação dos interesses dos capitalistas ao interesse público torna-se imperiosa, se certamente não mais legítima, justamente quando a selvageria faz desandar as coisas, como agora, e ameaça a todos com a catástrofe. Nesse momento, em vez da mera assimetria de ganhos em favor dos capitalistas, o que temos é a necessidade – com cheiro de chantagem – de que as perdas sejam socializadas, e o Estado, com os contribuintes a reboque, deve comparecer não como mero regulador, mas como ator decisivo, capaz de proteger os capitalistas (não necessariamente, por certo, cada um deles) das consequências de seu próprio destempero.

 

Mas a crise de agora traz novidades importantes. Em primeiro lugar, com respeito ao quadro geral da nova dinâmica econômica globalizada e seus correlatos. A intensa financeirização e as criações do “espírito animal” quanto a ela levaram antes a crises várias em países mais ou menos periféricos. Mas, enquanto o jogo corresse bem nos países centrais, era difícil imaginar que a ação coordenada em nível transnacional para contrapor-se às crises viesse de fato a ocorrer com a eficácia necessária: que cada país fizesse o “dever de casa” da prosperidade que a globalização dos ricos prometia. Atingido o coração do sistema econômico mundial, porém, torna-se muito mais realista a expectativa de de que venhamos a ter medidas de impacto eventualmente planetário, até pelas assimetrias econômicas mesmas do mundo globalizado.

 

Além disso, a expectativa de novidades parece justificar-se também pela maneira específica em que se dá o impacto da crise nos Estados Unidos. Para começar, temos a coincidência de sua manifestação mais dramática com o auge da campanha para a eleição do sucessor de George Bush. Se as coisas podem talvez acomodar-se sem ressonâncias mais negativas quando se trata simplesmente de negociações mais ou menos sigilosas entre agentes poderosos do mercado e altos representantes sobretudo do poder executivo, as ressonâncias são grandemente amplificadas quando o Sr. Mercado tem de ir ao Congreso, como diz também “The Economist”, em circunstâncias em que, por outro lado, um presidente pato-manco mercadista e dedicado a cortar impostos dos ricos tem de ir contritamente à televisão tentar atrair a bênção dos eleitores para o que aparece aos olhos de muitos como doação de dinheiro à rica e odiada Wall Street – e doação feita a toque de caixa, antes que o mundo acabe e enquanto o patrimônio modesto de muitos se derrete. Na pergunta dirigida pelo senador John Tester, Democrata de Montana, a Hank Paulson, secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, presidente do Fed, relatada por Timothy Egan em blog do New York Times: “Por que temos uma semana para decidir se vamos apropriar 700 bilhões de dólares ou se o sistema financeiro do país vai pelo ralo?”

 

Diante da incúria evidente a todos os condenados a sofrer as consequências, o que agora é difícil imaginar é que continue tudo na mesma.”