Os crucifixos na Itália e o imperialismo “cultural” dos laicistas
Por Ubiratan Iorio
A União Européia quer proibir os crucifixos nas escolas da Itália, sob a alegação de sempre – a da “liberdade religiosa” – uso aspas para indicar que se trata do conceito francês, que anda na moda, de “laicidade positiva”, gêmeo daquele que defende, por exemplo, o domínio da política sobre a economia e que sufoca as expressões da verdadeira liberdade, a liberdade de consciência, em que os impedimentos a serem enfrentados não estão fora, mas dentro das consciências individuais e que é negativa em sua essência (liberdade de e não liberdade para).
Trata-se, na verdade, do mais torpe imperialismo “cultural”, da laicização imposta à força, sob o argumento falacioso de que a proibição seria um gesto “de respeito” para com os que não creem no Cristianismo. Ora, pendurar um crucifixo ou uma estampa de Jesus (ou de qualquer santo, ou de qualquer símbolo de qualquer religião) na parede não é, definitivamente, limitar ou cercear o pensamento de ninguém – pelo contrário, é um fundamento básico de liberdade e de liberdade religiosa em particular!
Por tradição, na sociedade italiana, como de resto em todo o ocidente, há muitos séculos o crucifixo nas salas de aula e em repartições públicas e privadas é uma garantia para os céticos de que a maioria cristã respeita a sua ausência de fé, porque segue os ensinamentos de um “Deus bom”, mesmo que eles não acreditem em sua existência. Mandar retirar esse símbolo à força, além de uma agressão à maioria, acarreta o risco de que venha a ser substituído por emblemas que incitem à violência, ou ao uso de drogas, ou à intolerância de todos os tipos, ou ao niilismo nietzschiano, ou ao existencialismo sartriano ou a outros comportamentos que a maioria quase absoluta sempre imputou como vícios.
Os inimigos da Igreja – e hoje eles são muitos e estão bem organizados! – batem à exaustão na tecla de que a história do Cristianismo tem vários momentos de escuridão, mas omitem, também até o cansaço, que, sob o ponto de vista institucional, a Igreja – e, de forma mais ampla, a tradição judaico-cristã – sempre foi e é o verdadeiro limite, na Itália e no Ocidente, a qualquer forma de imperialismo religioso, porque os bons cristãos têm o dever de acreditar na sociedade aberta e na liberdade ampla de escolha, incluindo a de aceitar ou rejeitar a sua ou qualquer outra religião. Mas os laicistas, com parâmetros de tintas gramscianas e de relativismo moral, nada mais querem do que impor a sua visão, sob o surrado pretexto da separação entre Igreja e Estado.
É dever dos católicos e dos cristãos em geral – bem como dos seguidores de qualquer religião que se preze – não se omitir no bom combate da verdadeira liberdade religiosa, a que não tem aspas. Hoje, é uma batalha que está decidindo o futuro da Europa; amanhã, se o silêncio covarde ou envergonhado dos justos o permitir, poderá conduzir o mundo para uma sociedade desprovida de qualquer sentido de transcendência e, portanto, para a própria desumanização.
O governo italiano está protestando contra a tentativa da União Européia, em um movimento suprapartidário que reflete as melhores tradições italianas – usos, costumes e tradições seculares e espontâneos que os laicistas querem eliminar por decreto. Como descendente de italianos orgulhoso dessas tradições, como brasileiro (a “coisa” já chegou aqui, no TJ do Rio de Janeiro) e, sobretudo, como católico, escrevo o meu brado com firmeza: deixem os crucifixos onde sempre estiveram ou parem de falar em liberdade e assumam de uma vez por todas que são imperialistas “culturais”!
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