Biografia não-autorizada do neoliberalismo

Luciano Trigo, jornalista e escritor, em artigo na página móvel do jornal O Globo, procura descrever historicamente e ideologicamente a ascensão e queda do neoliberalismo. (O mundo não é plano. Uma biografia não-autorizada do neoliberalismo. 05.10.2008).

 

Na linha do que já fora feito por Robert Skidelsky quando descreveu a alternância dos ciclos econômicos liberais e conservadores nos momentos de crise, Trigo destaca que a História do capitalismo pode ser entendida como um cabo-de-guerra entre as “forças cegas” e a “mão invisível” do mercado.  Quando uma fracassa, a outra assume. Começa recordando que depois da crise de 29 ficou evidente que algum grau de intervenção do Estado era desejável, ou mesmo indispensável, para a economia funcionar de forma minimamente decente. Vieram a Segunda Guerra e o New Deal, e durante décadas os defensores do mercado aberto foram confinados a um subúrbio da teoria econômica. Depois, no final dos anos 70, a economia americana voltou a entrar em crise, com altos índices de inflação e desemprego. A ”turma da mão invisível” voltou com força total.  Uma conspiração de fatores da geopolítica internacional disparou o processo que submeteria o planeta a uma dose cavalar de “capitalismo selvagem”, nos anos seguintes:

 

“1º Margaret Thatcher, na Inglaterra, esvaziou os sindicatos, cortou impostos, reduziu e o papel do Estado e estimulou a privatização. Seu credo era que o bem-estar social depende da responsabilidade pessoal, e não do Governo.

 

2º Paul Volcker, presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano, mudou o foco da política econômica americana: entre a integridade do sistema financeiro e o bem-estar da população, ficou claro que prevaleceria o primeiro.

 

3º Ronald Reagan levou adiante a doutrina, reduzindo impostos, cortando benefícios do Estado e desregulamentando diversos setores da economia, na chamada Reaganomics.

 

4º Deng Xiaoping começou a transformar a fechada China num centro aberto de dinamismo capitalista.

 

5º Após a derrocada do Comunismo, a ortodoxia neoliberal contaminou as instituições financeiras internacionais. O FMI se tornou um agente da promoção de políticas de “ajustamento estrutural” em países periféricos mergulhados em crises, como México, Argentina e Brasil.

 

6º Foi decretado o Consenso de Washington — um conjunto de regras básicas formulado em novembro de 1989 por economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro americano. A receita incluía redução dos gastos públicos, privatização das estatais, desregulamentação e a eliminação de restrições ao investimento estrangeiro direto, conduzindo à globalização financeira.”

 

Prossegue afirmando que nos 30 anos seguintes, saíram de campo Keynes e o Estado do BemEstar Social, e voltaram Hayek, Mises e a Escola Austríaca, revigorados pelo sangue novo de Milton Friedman e dos Chicago Boys, os economistas da Universidade de Chicago eivados da missão de espalhar pelo mundo o fundamentalismo de mercado. Desregulamentar e privatizar se tornaram as palavras de ordem do novo anarco-capitalismo predatório.

 

O neoliberalismo, na visão do escritor, foi vendido como um horizonte insuperável, como a linha de chegada da humanidade:

 

“nos fizeram acreditar que o jogo tinha acabado, e que a História concluíra seu curso — com o triunfo definitivo do ideário neoliberal. O país que não privatizasse, não liberalizasse, não desregrasse, seria simplesmente expulso da civilização. Qualquer tentativa dos países pobres de resistir à expansão imperialista da potência dominante passou a ser rechaçada como protecionismo retrógrado: o novo mercado globalizado exige a aceitação incondicional das regras estabelecidas pela economia dominante, que desconhece fronteiras e se sobrepõe aos Estados. A soberania se tornou uma ficção.”

 

Após tecer críticas ao pensamento econômico neoliberal e, especialmente, a sua ética neodarwiniana de competição desregrada que tornou o homem ganancioso e egoísta, reconhece que o “neoliberalismo não é mau em si – só não passou no teste da realidade.” Em tese, a sua equação poderia funcionar: com menos impostos, sobra mais dinheiro para a produção, aumentam os empregos, e a mão invisível cuida de resolver problemas nos quais o Estado se mostrou incompetente. Paradoxalmente, o socialismo viveu um problema parecido: em tese seria maravilhoso, se todos fizessem o dever de casa; mas não é assim que as coisas acontecem no mundo real. Lembra que Hayek enxergou nos perigos do crescimento do Estado o caminho da servidão, mas a sua ausência levou a outro tipo de escravidão: a que transforma os seres humanos em escravos do dinheiro, ou, pior ainda, combustível voluntário para a reprodução de um capital sem rosto.

 

Por fim, indaga o que esperar, agora que a aparente incapacidade para se resolver a crise pode provocar o fim do ciclo atual?

 

“Se o vento passar a soprar para outro lado, em breve os economistas no poder estarão pontificando sobre mecanismos de regulamentação, a criação de mais estatais e outros mecanismos de fortalecer o Estado. Quando os sinais se inverterem novamente, governos populistas, como os que já se multiplicam na América Latina, retomarão o discurso nacional-desenvolvimentista de meados do século passado, dando início a um novo ciclo da turma que combate as forças cegas. Vícios e fórmulas fracassadas do passado podem voltar a prevalecer, bem como práticas clientelistas que, a pretexto de incluir, afastam do debate político as classes mais pobres.”

 

[Publicado pelo Editor]

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