A megalomania do peronismo
Héctor Ricardo Leis, Professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, e Eduardo Viola, Professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB, ambos autores do livro Sistema Internacional com Hegemonia das Democracias de Mercado: Desafios de Brasil e Argentina (Florianópolis, Editora Insular, 2007), comentam no jornal O Estado de São Paulo, de 15.08.2008, a influência do peronismo na vida política da Argentina.
“A megalomania do peronismo
Héctor Ricardo Leis e Eduardo Viola
Húbris é o fio que tece a tragédia da Argentina. Na antiga Grécia, os que se situavam acima dos homens e das leis, em desafio aos deuses, estavam possuídos por ela. Húbris é a megalomania política. Homero já nos advertia sobre os castigos reservados aos que se tornam cegos por ela. Mas seu aviso não chegou ainda à Argentina.
Na Argentina moderna, a húbris está associada aos militares e ao peronismo, vertentes que se unem na figura do general Perón. Os golpes militares de 1930 e de 1943 inauguraram extrema violência estatal, com ápices na repressão à guerrilha dos anos 70, com milhares de desaparecidos, e no delírio da Guerra das Malvinas, nos anos 80. O movimento peronista avançou em convergência com os militares. Seus líderes, desde Perón, insistem em dividir o país em peronistas e antiperonistas. Por meio das ações mancomunadas de militares e peronistas, os argentinos permaneceram numa história de desgraças, com contribuição de outros autores, como a Igreja Católica, sindicatos e latifundiários.
O peronismo, que nos anos 50, usava frases como “Evita me ama” para alfabetizar crianças e incentivava o incêndio de igrejas pelas massas, iria encarnar mais tarde em organizações como os Montoneros, uma das principais responsáveis pela radicalização violenta e suicida do país. A mesma megalomania estava em Perón, que apoiou a ação de organizações armadas e depois as combateu, quando chegou ao poder em 1973, e nos sindicalistas. Os golpes de 1955, 1962, 1966 e 1976 só podem ser entendidos pela dialética perversa de militares e peronistas. Houve exceções: governos moderados, como as gestões de Frondizi, Illia e Alfonsín, os melhores estadistas argentinos nessas décadas, que, por não serem peronistas, nunca chegaram a ter popularidade alta. Não estavam possuídos pela megalomania, o que os tornou presas fáceis de peronistas e militares, que desestabilizaram seus governos.
Os militares estão aprendendo a lição. Os que participaram da repressão na época da ditadura estão presos ou processados. Existe, também, um histórico de reconhecimento público de seus excessos. Entre outros exemplos, em 1995 o chefe do Exército durante o governo de Menem reconheceu publicamente a ação criminosa das Forças Armadas na ditadura militar. Eles são obrigados a obedecer a ministros da Defesa civis e os cadetes são instruídos de acordo com a doutrina dos direitos humanos. Não é o caso do peronismo: nenhuma de suas lideranças fez qualquer autocrítica. Nunca houve um pedido de perdão à sociedade ou um chamado à reconciliação. Para Perón e para as lideranças políticas, sindicais ou revolucionárias do peronismo, a culpa nunca é deles. A cartilha das massas peronistas muda de ideologia, mas sempre reza pela mesma megalomania. O mesmo ocorre com os Kirchners: sua ação no governo acentua identidades que dividem a nação em supostos bons e maus, pensando mais no passado que no futuro.
A mesma falta de medida faz com que o peronismo subestime a especificidade de outras esferas da realidade. Isso explica a ignorância da mentalidade peronista dominante sobre assuntos econômicos. A politização das estatísticas, própria do “totalitarismo” político do peronismo, seria impensável em qualquer outra sociedade democrática do século 21. Especialmente na época da globalização, a característica mais deletéria da concepção populista da política é sua incapacidade para medir as conseqüências econômicas de sua ignorância nesse campo.
Os governos de Menem e dos Kirchners exemplificam a ignorância econômica. Ambos começaram sua gestão salvando o país de uma catástrofe econômica iminente, mesmo sem compreensão profunda das leis econômicas do mundo contemporâneo. Embora aparentemente diferentes, os governos Menem e Kirchner adotaram práticas econômicas privatizantes, num caso, e estatizantes, no outro, com a mesma visão política reducionista que os levou a pensar a economia de mercado como fonte de poder político, em vez de garantia insubstituível de um desenvolvimento econômico sustentável. Portadores de uma visão contrária à democracia de mercado, seus líderes e intelectuais tendem a ver a produção de riqueza como algo suspeito, mais perto do mal que do bem, e que, em conseqüência, deve ser rigidamente controlada pelo Estado.
Para construir um país se traz para o presente o que unirá seus cidadãos no futuro. Quando a política não é conduzida com moderação, traz-se o que dividiu o povo no passado. Nunca houve na Argentina, ou em qualquer outro lugar, atores absolutamente “bons”. Para fazer juízos históricos e construir a memória do país cada ator deve considerar também a “verdade” do outro, tanto quanto sua própria responsabilidade. Na Argentina isso não ocorre precisamente porque a húbris cega quem, exercendo a autoridade do Estado, tem a responsabilidade de produzir um diálogo conciliador. O ódio de um setor ou grupo do país – militares ou guerrilheiros, liberais ou peronistas, empresários, operários ou produtores rurais – o impede de pensar no futuro.
A grande lição da Argentina contemporânea para a América Latina é que a megalomania não é fruto ou condição para tirania apenas. É o lado obscuro da forma tradicional de fazer política e, portanto, floresce também na democracia. O dilema argentino hoje não é democracia ou ditadura, é entre a reconciliação, em que todos se possam sentir reconhecidos como parte genuína da nação, ou a húbris, que convoca todos para a tragédia cíclica.”
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